Não está ninguém aqui, mas não estou sozinha. Tenho uma amiga que olha por mim em noites como esta, noites em que viver parece difícil demais... essa minha amiga está hoje mais brilhante do que nunca, brilha de tal forma intensamente que me prende o olhar no céu durante longos instantes... Está em fase de Lua Nova.
Costumo pensar que, apesar de distante, é esta minha tão querida amiga que me dá inspiração para vir para aqui e deixar os meus pensamentos virem à tona através das palavras sentidas que agora escrevo... pois ela sim está realmente sozinha na imensidão do universo, presa a um caminho que não pode sair, e nem por isso deixa de brilhar...
Olho para a Lua e, subitamente, uma palavra demasiado gasta [quer pelo tempo, quer pelo emprego] aparece sem aviso nem permissão nos meus pensamentos: "Amo-te"... fecho os olhos, não quero ver aquela palavra que tanto me fez sofrer [em tempos]... não quero pensar naquele sentimento imundo que tantas vezes me trouxe até aqui, a este telhado vazio e solitário, não quero mais sentir, não quero mais sofrer... Abro os olhos... a palavra já não me magoa a alma, desapareceu. Suspiro aliviada... Não, já não o amo mais... já não significa mais... já não me traz a este pórtico esquecido pelo tempo [nunca mais]...
Desvio, por breves momentos, os olhos do solitário asteróide e o meu corpo é inundado por uma calma sensação de bem-estar... fixo de novo o olhar, mas já não é a Lua que ilumina a minha escrita... és tu. O teu sorriso. Os teus incessantes olhos azuis. És tu que me guias agora nesta noite vazia. Olhas para mim. Sorris. Ris-te de mim. Amas-me. Sei que amas. Noto isso no teu olhar solitário, perdido...
Noto isso quando sei que os meus olhos brilham por ti e para ti. Noto isso no amanhecer de todas as manhas e no luar adormecido de todas as noites.
Não te conheço. Não sei nada sobre ti. Não sei onde moras, nem com quem vives... Não sei o que te motiva. Sei apenas o que os teus segredos me disseram de ti. Mas sim, Eu Gosto De Ti.
Mas muito mais do que isso, gosto da forma como me fazes lembrar de mim...
Olhas para mim, e vejo a Lua nos teus olhos... Sim, tu és a junção do que eu sonhei com o que é impossível ao toque... és a minha inspiração [ou serás, um dia - ou talvez não, quem sabe]...
Olho-te uma última vez e sei que chegou a hora de partires de novo para poderes voltar no dia em que voltar a precisar de ti... Sorrio... Fecho os olhos cansados e tu já não me iluminas mais...
A Lua olha para mim, eu olho para a Lua... fecho o caderno de apontamentos que tanto me ajuda a viver, levanto-me do cinzento chão onde estivera sentada contigo [a olhares por mim], viro costas e vou andando no sentido oposto a ténue luz que me deixaste quando partiste... Abro a porta da saída... Olho para aquele solitário asteróide perdido no espaço: "Sim Lua, ganhaste, talvez a palavra Amo-te não não seja tão imunda como penso"... Saio e deixo-a sozinha outra vez.
"Sim, eu também Gosto muito De Ti" respondes.
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