sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Cartas de amor... ridículas

       "Todas as cartas de amor são
       Ridículas.
       Não seriam cartas de amor se não fossem
       Ridículas.
       Também escrevi em meu tempo cartas de amor, 
       Como as outras,
       Ridículas.
       As cartas de amor, se há amor, 
       Têm de ser
       Ridículas.
       Mas, afinal,
       Só as criaturas que nunca escreveram 
       Cartas de amor 
       É que são
       Ridículas.
       Quem me dera no tempo em que escrevia 
       Sem dar por isso
       Cartas de amor
       Ridículas.
       A verdade é que hoje 
       As minhas memórias 
       Dessas cartas de amor 
       É que são
       Ridículas.
       (Todas as palavras esdrúxulas,
       Como os sentimentos esdrúxulos,
       São naturalmente
       Ridículas.)"
Fernando Pessoa - Álvaro de Campos

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Missing

Ninguém faz ideia do difícil que é passar oito anos da nossa vida, habituada à mesma rotina: habituada a chegares a casa e teres as tuas irmãs a berrar e a correr de um lado para o outro, insuportavelmente barulhentas e estúpidas, completamente infantis, mimadas e parvas, irmãs que em momentos menos bons chegaste a odiar... mas no fim da noite, eram essas irmãs  que encontravam sempre tempo para te dizerem "Gosto muito de ti, mana" ou "Mana, és a minha melhor amiga de todas, todas, todas"... irmãs estúpidas e insuportáveis, mas que gostavam de ti, amavam-te e tu gostavas delas, apesar de odiares todo aquele barulho e as suas parvoíces...
No final de contas, era por elas que tu existias, eram elas que te faziam estudar e querer ser sempre mais, para  que um dia pudessem dizer: "És o meu orgulho mana, quero ser como tu quando for grande".
De um momento para o outro, vês-te numa casa vazia, sem barulho, sem brincadeiras parvas, sem elas a chatear-te e a correr de um lado para o outro... sem ninguém para te dizer o quanto gosta de ti antes de ires dormir... sem ninguém a quem dares aquele abraço de boa noite que diz tudo...
O pior, é a sensação de que nada será o mesmo... a sensação que de cada vez que vais a casa elas estão cada vez mais crescidas, cada vez menos inocentes, e cada vez mais distantes de ti...
É horrível estares longe porque sentes que estás a perder esse desenvolvimento delas, esse crescimento... pior, sentes que estão desiludidas contigo, por pensarem que nunca as ias abandonar, que ias sempre estar lá para quando elas precisassem de ti, mas adivinha, não estás!
Não estás, nem vais estar nos próximos cinco anos da tua vida...