domingo, 30 de setembro de 2012


Capítulo 7
Vazio

           
            Luz.
            Novamente aquela intensa luz vermelha.
            Silêncio.
            Estava outra vez no meu quarto. No orfanato.
            Fechei os olhos. Estava em casa. Conseguia sentir o cheiro a relva molhada característico daquele lugar. Do meu lugar.
            Abri os olhos, a medo. Continuava ali. Nada tinha desaparecido como que por magia. Nada se tinha alterado.
            Talvez tudo aquilo tivesse sido, realmente, um sonho. Talvez nunca tivesse acontecido. Talvez…
            De repente, percebi que havia algo estranho… o “Bons sonhos, meu amor” estava na prateleira pendurada na parede, como se nunca de lá tivesse saído. Derek dormia profundamente na cama ao lado da minha. Aquilo não fazia sentido!
            Corri até à minha cama e peguei no telemóvel. Eram 22h do dia 20 de Junho de 2011…
            Impossível! Era como se tivesse recuado no tempo. Recuando para antes de me deitar na cama a folhear o “Bons sonhos, meu amor”!
            Lembrava-me de ter acordado e reparado que Derek já tinha saído. De ter deixado o livro aberto em cima da cama… e agora era como se isso nem sequer tivesse acontecido…
            Estava cada vez mais confusa!
            Contudo, num afluxo súbito de compreensão, percebi que tinha contar tudo aquilo a Derek. Ele, provavelmente, rir-se-ia de mim e elogiaria a minha capacidade de fantasiar, gozando comigo. Mas não importava. Tinha de contar aquilo a alguém ou iria morrer de frustração.
            Assim, corajosamente, dirigi-me até a sua cama. Ele estava deitado de lado e os seus negros cabelos roçavam a pele macia da sua cara, que parecia dizer «Vá, podes fazer-me festinhas».
            Sentei-me perto dele e, muito suavemente, afastei os cabelos da sua face, estupendamente, bela. Passado, o que pensei terem sido longos instantes, dei por mim a fazer-lhe as festinhas que antes ironizara!  
            Parecia um anjo deitado nos seus lençóis de neve. E então desisti. Não ia acordá-lo. Não para lhe falar das minhas estranhas fantasias. Um anjo não devia ser acordado em vão.
            Então afastei-me. Mas antes de o fazer, deixei que os meus lábios sentissem uma última vez naquela noite o doce aroma da sua pele macia, beijando-o na face.
            Ao levantar-me, percebi que estava, extremamente, cansada. Cansada ao ponto de mergulhar num sono profundo mal caísse na cama… No entanto, antes de me deixar afogar nos lençóis de seda brancos, algo despertou a minha atenção.
            O silêncio.
            Não era normal aquele silêncio. Normalmente não se consegue dormir em paz antes da meia-noite que é quando os miúdos mais pequenos decidem que estão cansados o suficiente para dormir, ou quando a dona Marlene se levanta chateadíssima para os avisar que já passou da hora de recolher. Nunca na história do Orfanato D. Maria II tinha havido um silêncio assim tão profundo.
            Vesti o roupão e decidi ir até à sala de estar, tinha de ver com os meus próprios olhos que estavam, realmente, todos a dormir… o que, com certeza absoluta, era uma utopia.
            Abri a porta e avancei pelo corredor deserto que ligava todos os quartos a uma pequena sala de estar onde os mais novos costumavam brincar e passar o tempo. Abri a enorme porta de madeira que lhe dava acesso e reparei que a luz estava acesa.
            Contudo a sala estava vazia. Não havia, estranhamente, ninguém a contrariar a hora de recolher, não ali.
            A enorme televisão, colocada a um canto, estava acesa e por toda a sala haviam jogos e brinquedos espalhados… como se tivessem sido ali largados apenas por breves instantes. Aquilo era muito estranho. Nunca ninguém se deitava sem arrumar aquela sala. Muito menos sem desligar a televisão e as luzes. Era como se pretendessem continuar a brincar até tarde e algo os tivesse arrancado dali sem aviso…
            Fui até à televisão e desliguei-a. Fiz o mesmo com a lâmpada de iluminação ao sair. Pensei em ir para a cama, mas estava demasiado inquieta para conseguir descansar ou dormir. Então, decidi ir até à cozinha.
            A porta estava aberta.
            Ao aproximar-me senti um doce aroma a canela e reparei que uma suave claridade inundava todo o local. Aproximei-me mais da mesa de vidro, espantosamente, limpa e brilhante e só então percebi de onde provinha o agradável perfume. A um canto estava uma vela acesa. Uma “vela cheirosa”, como Derek costuma dizer.
            À sua volta estavam fotografias, fotografias de todos os órfãos que ali viviam… senti-me completamente baralhada… que estava aquilo ali a fazer? Porque tinha a dona Marlene sido descuidada ao ponto de deixar uma vela acesa durante a noite?
            Provavelmente não seria nada de errado. Provavelmente teria sido apenas isso, um descuido. Amanhã voltaria tudo ao normal…
            Farta de tanta inquietação, decidi ir para o meu quarto, não valia a pena pensar mais naquilo…
            Entrei no quarto esgotada, só queria mergulhar nos meus queridos lençóis e dormir… contudo isso não aconteceu… Derek não estava na cama e isso deixou-me alarmada.
            Ele nunca fazia isto. Nunca se levantava durante a noite, qualquer que fosse a razão. Isto não era, definitivamente, dele.
            Num impulso corri para a casa de banho para averiguar se ele lá estava… mas sem sucesso. Comecei a desesperar e dei por mim a chamar por ele sem sequer me importar que estivessem todos a dormir. Nada. Nenhuma reposta. Nenhum som.
            Só aquele silêncio exasperante.
            Num impulso, corri até aos outros quartos para ver se alguém sabia de Derek, mas, para minha surpresa, também eles se encontravam vazios.
            Nada.
            Ninguém.
            Eu era a única ali dentro.
            Algo de muito estranho e misterioso se passava.
            Estava cansada. Queria descansar. Precisava de dormir.
            Mas estava sozinha.
            A minha casa estava vazia...
            A minha vida estava vazia...

quinta-feira, 8 de março de 2012

Vida

"Já tentei substituir pessoas insubstituíveis e esquecer pessoas inesquecíveis. Já perdoei erros quase imperdoáveis… Já vivi de amor e fiz promessas eternas mas também já me magoei muitas vezes! Tive medo de perder alguém especial [e acabei por perder]. Já me desiludi com pessoas que pensei que nunca me desiludiriam, mas também desiludi alguém. Já pensei que fosse morrer de tanta saudade. Já ri quando não devia…
Fiz amigos eternos e amigos que nunca mais vi. Fui amada e não amei. Amei e fui amada, mas também fui rejeitada. Já telefonei só para ouvir uma voz….

Mas vivi, e ainda vivo, não passo pela vida, e também tu não deverias passar!"

terça-feira, 6 de março de 2012

Ìman

Voltou. Voltou aquela vontade louca de te agarrar.  De ficar psicologicamente bêbeda. Fisicamente alucinada. De te beijar. De não pensar. De deixar morrer o medo. De te dizer que não deixes [como deixas] o teu rosto a centímetros do meu. A tua boca assustadoramente perto. O teu cheiro à minha volta. Em mim.
 
Somos como dois ímanes que se repelem e se atraem com a mesma facilidade de um piscar de olhos... Dois ímanes que se atraem de tal forma intensa que o resultado só poderia ser EXPLOSIVO.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Para Sempre

Afastei-me. Vieste até mim com um sorriso e aquelas palavras duras que partilhamos desde sempre. 
Desviei o olhar e esqueci a tua voz na minha cabeça. Senti-te triste, ignorado e desiludido e adorei quando me disseste que era 'uma pessoa horrível e que estava a ser má'.
Afastei-me da minha ideia pré-formada de te ignorar, de te fazer sentir a minha falta. E lancei-te aquele olhar que só tu entendes. Aquele olhar tipicamente nosso, que nos fez estremecer aos dois naquele instante.

Percebi que aquele ódio intenso continuava inalterável.
Que esse sentimento seria para sempre.

Sorriso falso...


Olhaste-me nos olhos e abraçaste-me com aquele sorriso falso, ciumento [que tanto adoro]. Naquele momento soube que estavas perto. Que havia esperança. Que algures no fundo do teu coração havia um lugar e um tempo para mim.


sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Cartas de amor... ridículas

       "Todas as cartas de amor são
       Ridículas.
       Não seriam cartas de amor se não fossem
       Ridículas.
       Também escrevi em meu tempo cartas de amor, 
       Como as outras,
       Ridículas.
       As cartas de amor, se há amor, 
       Têm de ser
       Ridículas.
       Mas, afinal,
       Só as criaturas que nunca escreveram 
       Cartas de amor 
       É que são
       Ridículas.
       Quem me dera no tempo em que escrevia 
       Sem dar por isso
       Cartas de amor
       Ridículas.
       A verdade é que hoje 
       As minhas memórias 
       Dessas cartas de amor 
       É que são
       Ridículas.
       (Todas as palavras esdrúxulas,
       Como os sentimentos esdrúxulos,
       São naturalmente
       Ridículas.)"
Fernando Pessoa - Álvaro de Campos

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Missing

Ninguém faz ideia do difícil que é passar oito anos da nossa vida, habituada à mesma rotina: habituada a chegares a casa e teres as tuas irmãs a berrar e a correr de um lado para o outro, insuportavelmente barulhentas e estúpidas, completamente infantis, mimadas e parvas, irmãs que em momentos menos bons chegaste a odiar... mas no fim da noite, eram essas irmãs  que encontravam sempre tempo para te dizerem "Gosto muito de ti, mana" ou "Mana, és a minha melhor amiga de todas, todas, todas"... irmãs estúpidas e insuportáveis, mas que gostavam de ti, amavam-te e tu gostavas delas, apesar de odiares todo aquele barulho e as suas parvoíces...
No final de contas, era por elas que tu existias, eram elas que te faziam estudar e querer ser sempre mais, para  que um dia pudessem dizer: "És o meu orgulho mana, quero ser como tu quando for grande".
De um momento para o outro, vês-te numa casa vazia, sem barulho, sem brincadeiras parvas, sem elas a chatear-te e a correr de um lado para o outro... sem ninguém para te dizer o quanto gosta de ti antes de ires dormir... sem ninguém a quem dares aquele abraço de boa noite que diz tudo...
O pior, é a sensação de que nada será o mesmo... a sensação que de cada vez que vais a casa elas estão cada vez mais crescidas, cada vez menos inocentes, e cada vez mais distantes de ti...
É horrível estares longe porque sentes que estás a perder esse desenvolvimento delas, esse crescimento... pior, sentes que estão desiludidas contigo, por pensarem que nunca as ias abandonar, que ias sempre estar lá para quando elas precisassem de ti, mas adivinha, não estás!
Não estás, nem vais estar nos próximos cinco anos da tua vida...