Capítulo 7
Vazio
Luz.
Novamente aquela intensa luz
vermelha.
Silêncio.
Estava outra vez no meu quarto. No
orfanato.
Fechei os olhos. Estava em casa.
Conseguia sentir o cheiro a relva molhada característico daquele lugar. Do meu
lugar.
Abri os olhos, a medo. Continuava
ali. Nada tinha desaparecido como que por magia. Nada se tinha alterado.
Talvez tudo aquilo tivesse sido,
realmente, um sonho. Talvez nunca tivesse acontecido. Talvez…
De repente, percebi que havia algo
estranho… o “Bons sonhos, meu amor” estava na prateleira pendurada na parede,
como se nunca de lá tivesse saído. Derek dormia profundamente na cama ao lado
da minha. Aquilo não fazia sentido!
Corri até à minha cama e peguei no
telemóvel. Eram 22h do dia 20 de Junho de 2011…
Impossível! Era como se tivesse
recuado no tempo. Recuando para antes de me deitar na cama a folhear o “Bons
sonhos, meu amor”!
Lembrava-me de ter acordado e
reparado que Derek já tinha saído. De ter deixado o livro aberto em cima da
cama… e agora era como se isso nem sequer tivesse acontecido…
Estava cada vez mais confusa!
Contudo, num afluxo súbito de
compreensão, percebi que tinha contar tudo aquilo a Derek. Ele, provavelmente,
rir-se-ia de mim e elogiaria a minha capacidade de fantasiar, gozando comigo.
Mas não importava. Tinha de contar aquilo a alguém ou iria morrer de
frustração.
Assim, corajosamente, dirigi-me até
a sua cama. Ele estava deitado de lado e os seus negros cabelos roçavam a pele
macia da sua cara, que parecia dizer «Vá,
podes fazer-me festinhas».
Sentei-me perto dele e, muito
suavemente, afastei os cabelos da sua face, estupendamente, bela. Passado, o
que pensei terem sido longos instantes, dei por mim a fazer-lhe as festinhas
que antes ironizara!
Parecia um anjo deitado nos seus
lençóis de neve. E então desisti. Não ia acordá-lo. Não para lhe falar das
minhas estranhas fantasias. Um anjo não devia ser acordado em vão.
Então afastei-me. Mas antes de o
fazer, deixei que os meus lábios sentissem uma última vez naquela noite o doce
aroma da sua pele macia, beijando-o na face.
Ao levantar-me, percebi que estava,
extremamente, cansada. Cansada ao ponto de mergulhar num sono profundo mal
caísse na cama… No entanto, antes de me deixar afogar nos lençóis de seda
brancos, algo despertou a minha atenção.
O silêncio.
Não era normal aquele silêncio.
Normalmente não se consegue dormir em paz antes da meia-noite que é quando os
miúdos mais pequenos decidem que estão cansados o suficiente para dormir, ou
quando a dona Marlene se levanta chateadíssima para os avisar que já passou da
hora de recolher. Nunca na história do Orfanato
D. Maria II tinha havido um silêncio assim tão profundo.
Vesti o roupão e decidi ir até à
sala de estar, tinha de ver com os meus próprios olhos que estavam, realmente,
todos a dormir… o que, com certeza absoluta, era uma utopia.
Abri a porta e avancei pelo corredor
deserto que ligava todos os quartos a uma pequena sala de estar onde os mais
novos costumavam brincar e passar o tempo. Abri a enorme porta de madeira que
lhe dava acesso e reparei que a luz estava acesa.
Contudo a sala estava vazia. Não
havia, estranhamente, ninguém a contrariar a hora de recolher, não ali.
A enorme televisão, colocada a um
canto, estava acesa e por toda a sala haviam jogos e brinquedos espalhados…
como se tivessem sido ali largados apenas por breves instantes. Aquilo era
muito estranho. Nunca ninguém se deitava sem arrumar aquela sala. Muito menos sem
desligar a televisão e as luzes. Era como se pretendessem continuar a brincar
até tarde e algo os tivesse arrancado dali sem aviso…
Fui até à televisão e desliguei-a.
Fiz o mesmo com a lâmpada de iluminação ao sair. Pensei em ir para a cama, mas
estava demasiado inquieta para conseguir descansar ou dormir. Então, decidi ir
até à cozinha.
A porta estava aberta.
Ao aproximar-me senti um doce aroma
a canela e reparei que uma suave claridade inundava todo o local. Aproximei-me
mais da mesa de vidro, espantosamente, limpa e brilhante e só então percebi de
onde provinha o agradável perfume. A um canto estava uma vela acesa. Uma “vela
cheirosa”, como Derek costuma dizer.
À sua volta estavam fotografias,
fotografias de todos os órfãos que ali viviam… senti-me completamente
baralhada… que estava aquilo ali a fazer? Porque tinha a dona Marlene sido
descuidada ao ponto de deixar uma vela acesa durante a noite?
Provavelmente não seria nada de
errado. Provavelmente teria sido apenas isso, um descuido. Amanhã voltaria tudo
ao normal…
Farta de tanta inquietação, decidi
ir para o meu quarto, não valia a pena pensar mais naquilo…
Entrei no quarto esgotada, só queria
mergulhar nos meus queridos lençóis e dormir… contudo isso não aconteceu… Derek
não estava na cama e isso deixou-me alarmada.
Ele nunca fazia isto. Nunca se
levantava durante a noite, qualquer que fosse a razão. Isto não era, definitivamente,
dele.
Num impulso corri para a casa de
banho para averiguar se ele lá estava… mas sem sucesso. Comecei a desesperar e
dei por mim a chamar por ele sem sequer me importar que estivessem todos a
dormir. Nada. Nenhuma reposta. Nenhum som.
Só aquele silêncio exasperante.
Num impulso, corri até aos outros quartos
para ver se alguém sabia de Derek, mas, para minha surpresa, também eles se
encontravam vazios.
Nada.
Ninguém.
Eu era a única ali dentro.
Algo de muito estranho e misterioso
se passava.
Estava cansada. Queria descansar.
Precisava de dormir.
Mas estava sozinha.
A minha casa estava vazia...
A minha vida estava vazia...
